Duas horas.
Não falarei que o tempo não existe.
Não falarei que o tempo é invenção dos homens.
Não falarei que a existência é invenção dos homens.
Não falarei que a humanidade é invenção dos homens.
Não falarei que coisas inexistentes são inventadas de coisas inexistentes que são inventadas de coisas talvez existentes.
Não falarei que a verdade não existe.
Não falarei que a vida é um sonho.
Não falarei que o sonho é sonho sobre o sonho sobre a vida.
Não falarei que a vida acaba e que a vida é tudo e que nada mais existe.
Não falarei que não existem outras vidas, que a vida após a morte é a vida da areia, do adubo.
Não falarei sobre memórias, nem dúvidas, nem sobre a beleza ou a dor.
Não falarei sobre o amanhã; está sobre o amanhã, o amanhã e o depois.
Não falarei sobre o depois de amanhã.
Não falarei agora sobre o agora, nem sobre o depois agora, nem sobre o agora depois.
Não falarei sobre o sono.
Não falarei sobre a insônia.
Não falarei sobre os poetas.
Não falarei sobre minha cama.
Não falarei sobre minha nudez.
Não brincarei com as palavras.
Duas horas e meia.
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