segunda-feira, 25 de junho de 2012

putas
lamúrias
mãos de mães perdidas
horas
brisa
pernas
afago
açúcar
afeto
festa
forma
figura
afluente
aflorar
aflito
alvo
azul
alfena
ipê
flamboyant
mangueiras
gozo
algodão
amor
bem...

terça-feira, 5 de junho de 2012

Esculpir,
aparar as arestas,
definir as bordas,
meditar o desenho,
reforçar as cores,
decorar os traços,
decifrar os gestos
próprios,
meditar a estética,
buscar o belo,
criar o belo,
plasmar os delírios,
lixar as rugosidades,
alcançar os instrumentos,
banhar os pincéis,
equilibrar o corpo,
ouvir o silêncio,
ouvir o trabalho,
esperar as idéias,
meditar os detalhes, inferindo conceitos,
rasgar os papéis,
produzir o lixo,
misturar substâncias,
desistir de intentos,
enxergar novidades,
raspar a superfície,
dar o último toque,
olhá-la, fixamente, demoradamente,
aceitar o fim,
levar à prova,
expor-
-se.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Duas horas.
Não falarei que o tempo não existe.
Não falarei que o tempo é invenção dos homens.
Não falarei que a existência é invenção dos homens.
Não falarei que a humanidade é invenção dos homens.
Não falarei que coisas inexistentes são inventadas de coisas inexistentes que são inventadas de coisas talvez existentes.
Não falarei que a verdade não existe.
Não falarei que a vida é um sonho.
Não falarei que o sonho é sonho sobre o sonho sobre a vida.
Não falarei que a vida acaba e que a vida é tudo e que nada mais existe.
Não falarei que não existem outras vidas, que a vida após a morte é a vida da areia, do adubo.
Não falarei sobre memórias, nem dúvidas, nem sobre a beleza ou a dor.
Não falarei sobre o amanhã; está sobre o amanhã, o amanhã e o depois.
Não falarei sobre o depois de amanhã.
Não falarei agora sobre o agora, nem sobre o depois agora, nem sobre o agora depois.
Não falarei sobre o sono.
Não falarei sobre a insônia.
Não falarei sobre os poetas.
Não falarei sobre minha cama.
Não falarei sobre minha nudez.
Não brincarei com as palavras.
Duas horas e meia.

sábado, 2 de junho de 2012


Ele tentou, tentou debalde.
Era tarde.
Era tarde demais.

Ele disse, disse debalde.
Não tinha a ver.
Não tinha graça.

Foi à Inglaterra
ressuscitar os Beatles,
mas John Lennon morreu em Nova York.

Vá para casa, ele se diz,
vou para a rua, ele se responde,
um meio termo é estabelecido:
vá pra puta que o pariu.

Ele sorriu, sorriu debalde.
Era feio sorrir daquilo.
Era errado ser triste.
Eram cáries.

Ele dormiu, dormiu debalde.
O sono nunca vai embora.
Acordará e voltará a dormir de novo,
não importa quão imponente ele seja,
quão importante seja seu ofício,
quão sublime seja sua arte,
quão influente seja sua filosofia.

O sono é uma verdade mais absoluta que a morte.

Ele aprendeu uma palavra: debalde.
E tão somente para usá-la,
tornou a vida inútil,
a existência vã.
Essa é a lei e os poetas.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Que sonho maravilhoso é a vida...


Que sonho maravilhoso é a vida...
Eu quase posso tocar os pés no chão, sentindo a areia fofa e úmida.
Que sonho maravilhoso é a vida...
Eu quase posso sentir o cheiro do cabelo da mulher que amo,
quase posso sentir sua pele macia e quente,
eu quase posso sentir seu hálito doce enquanto a beijo.
Que sonho maravilhoso é a vida...
Eu quase posso ouvir o som do mar, com meu corpo boiando, suspenso,  assistindo o infinito céu azul,
eu quase posso sentir o vento no rosto de bicicleta na ladeira.
Que sonho maravilhoso é a vida...
Eu quase posso me perder em frases, sons, images, sabores,
eu quase posso pensar coisas malucas e sem propósito, desperdiçando meu cérebro.
Que sonho maravilhoso é a vida...
Eu quase posso sentir a experiência do orgasmo, sozinho, e tocá-lo,
eu quase posso explodir de alegria, desejo e calor, transando.
Que sonho maravilhoso é a vida...
Eu quase posso chorar e chorar e chorar
e sentir o gosto das lágrimas
e aceitar o que quer que seja
e dormir.
Que sonho maravilhoso é a vida...
eu abriria mão de tudo por esse sonho,
eu sacrificaria tudo por ele,
mas é impossível,
eu acordarei.

quarta-feira, 30 de maio de 2012


Qualquer coisa que eu diga:
Seja contra.
Qualquer coisa que eu faça:
Faça o contrário.

Eu nunca espero estar certo,
antes, sempre estar certo de estar errado me é um bálsamo.

Qualquer coisa que eu minta:
Diga a verdade.
Qualquer coisa que eu chore:
Sorria.

Eu nunca ficarei bravo contigo,
não me incomodará sua eterna resistência.
Serei mesmo é feliz:
Você precisa estar perto de mim
para saber quem não é.

Qualquer coisa que eu bagunce:
Arrume-a, corrija-a, purifique-a.
Qualquer coisa que eu descarte, lançando longe, soberbo, ignorante e displicente:
Retenha.

Eu não existo se não no outro:
você, meu amigo e inimigo, minha amiga e inimiga, meu amor.

terça-feira, 29 de maio de 2012

ZZZZ...
Os pernilongos querem comer meu corpo
ZZZZ...
Valas, espaços vazios tomados pelo som
ZZZZ...
Terror de tímpanos e labirintos,
vampiros da América do Sul,
vampiros que adentram sem serem convidados (se bem que deixei a janela aberta),
vampiros do calor,
da dengue de ricos e pobres.
Hematófagos invencíveis!
ZZZZ...
Querem comer meu corpo.

Meu corpo imóvel
de sono e descrença,
minhas pernas que não se levantam,
meus braços que não se movem...
e milhões de agulhas infernais
e milhões de gotículas roubadas
e milhões de insetos de vida curta e inútil
e ZZZZ...

Eu grito,
mas os vizinhos assistem TV
ou tomam tereré ouvindo sertanejo universitário.
Maldade minha, eu não grito,
não conheço os vizinhos e não quero incomodá-los.

Quem grita é o homem na rua,
ao morrer, me estendendo os braços:
- Como um cão!!!
E eu não sei se se trata de uma conjunção
ou de um verbo conjugado.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Por que esta noite seria diferente de todas as outras?
Por que este sono seria diferente de todos os outros?
Por que esta dor seria diferente de todas as outras
dores?

Eu não sei

se sofro, ou brinco de sofrer,
se vivo, ou brinco de viver,
ou vivo de brincar
esta brincadeira tão divertida, dolorida
e lenta...

A vida é uma dádiva, ou um fardo?
Um concurso, ou um jogo?

Aposto, sem cartas na mão.
Carpe... Carpe... Carpe... Carpe diem...