quarta-feira, 14 de agosto de 2013
Na noite das noites
Uma sombra tomará a Terra
E essa sombra será de fogo
E o fogo será de água
E a água estará repleta de bilhões de peixes
E os peixes desabarão na poeira agreste, debatendo-se asfixiados
Com olhos esbugalhados e bestiais
E os peixes serão espelhos dos homens
E Deus voltará a existir
E os profetas ficarão confusos vendo que tinham razão
E as pedras abrirão seus olhos
E os vulcões abrirão suas bocas
E a Terra engolirá os homens, com fome de incontáveis anos, primeiro aqueles que desejaram viver para sempre e depois aqueles que perseguiram seus iguais
E todo o conhecimento será inútil porque a amnésia se abaterá, impedindo mesmo que se lembrem os próprios nomes.
E ninguém poderá dizer "E agora, José?"
Ou, "Eu fui José, e agora morro"
E a humanidade não terá vergonha das guerras, das brutalidades, das palavras, das paixões, de fazer cocô, ou de qualquer coisa
E os homens morrerão felizes. Porque estiveram vivos
E meu pai me tomará nos braços, sentado no sofá da sala
E eu serei novamente do tamanho do seu colo
E o grande amor da minha vida será colocado em meu poder
E eu irei rasgá-la com uma faca de furiosas palavras de amor que não existem e que ficaram entaladas na minha garganta desde sempre
E eu protegerei sua queda, amparando-a docemente nos meus braços
com o rosto bem junto do seu
sentindo sua respiração se acabar.
Talvez ela sussurre "por quê?"
E o silêncio será sua resposta.
E eu irei beijá-la com o desejo e a ternura com que suguei pela primeira vez o peito da minha mãe.
E, então, lá, onde sempre estive, no vazio do Espaço, atirar-me-ei ao suicídio.
Porque a minha maior vontade, depois
da vontade de viver,
sempre foi a vontade de morrer.
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